Por Jeff.
A série 1494 percorre quinhentos anos de história monetária em cinco capítulos. Caso esteja chegando agora, o primeiro capítulo, Outros Tempos, está disponível aqui.
CAPÍTULO III — UMA RESPOSTA TEMPORÁRIA
Na noite de 15 de agosto de 1971, Richard Nixon interrompeu a transmissão regular da televisão americana para fazer um anúncio que era, segundo ele, uma resposta temporária a uma crise especulativa. Os americanos que haviam ligado a televisão para assistir ao western Bonanza viram em seu lugar o presidente sentado a uma mesa, de gravata, com a expressão de quem está administrando uma inconveniência passageira. Nixon falou por dezoito minutos. Usou a palavra "temporário" várias vezes. Não usou nenhuma vez a palavra "ouro".
O que ele havia feito, naquela noite, era encerrar o compromisso dos Estados Unidos de converter dólares em ouro à taxa de trinta e cinco dólares por onça troy. Era o compromisso sobre o qual repousava todo o sistema monetário internacional desde 1944. Era o último fio que conectava o dinheiro à substância física que o dinheiro havia representado por milênios de história humana. Nixon cortou esse fio num domingo à noite, sem consultar os aliados que o sistema obrigava a manter reservas em dólares, sem autorização legislativa, sem reversão possível. A medida temporária dura até hoje.
Para entender o que aconteceu naquele domingo, é preciso recuar até Bretton Woods.
Em julho de 1944, com a Europa destruída e o resultado da guerra já suficientemente claro para que os Aliados pensassem no mundo que viriam a construir, quarenta e quatro nações enviaram delegações a um hotel nas montanhas de New Hampshire. O que produziram em três semanas de negociação foi a arquitetura financeira do século XX. O dólar americano seria a moeda de reserva global. Todas as outras moedas seriam vinculadas ao dólar a taxas fixas de câmbio. E o dólar seria conversível em ouro à taxa de trinta e cinco dólares por onça, sob demanda, para qualquer banco central estrangeiro que o solicitasse. O ouro permanecia como âncora nominal do sistema, mas era uma âncora que apenas os Estados Unidos precisavam manter, porque apenas os Estados Unidos emitiam a moeda de reserva.
Era um sistema engenhoso e intrinsecamente instável. John Maynard Keynes, que chefiou a delegação britânica em Bretton Woods e perdeu o debate sobre a arquitetura final do sistema, havia proposto uma moeda de reserva supranacional chamada bancor, que não seria controlada por nenhum estado soberano. A proposta foi rejeitada pelos americanos, que saíam da guerra como a única potência industrial intacta e não tinham nenhum interesse em abrir mão do privilégio que sua posição lhes conferia. O economista francês Jacques Rueff chamaria esse privilégio, anos depois, de "déficit sem lágrimas": a capacidade de pagar importações, financiar guerras e sustentar consumo doméstico emitindo dólares que o resto do mundo era obrigado a aceitar como reserva porque não havia alternativa.
Robert Triffin, um economista belga-americano que trabalhava para o Federal Reserve, identificou em 1960 a contradição fatal que destruiria o sistema. Para que o dólar funcionasse como moeda de reserva global, os Estados Unidos precisavam exportar dólares em quantidade suficiente para financiar o comércio internacional. Mas exportar dólares significava acumular déficits na balança de pagamentos. E acumular déficits significava que as reservas de ouro americanas encolhiam em relação às obrigações em dólar que circulavam pelo mundo. Em algum ponto, as obrigações superariam as reservas, e qualquer banco central estrangeiro que tentasse converter seus dólares em ouro descobriria que o ouro não estava lá. O sistema funcionava apenas enquanto poucos países exigissem a conversão que o próprio sistema prometia garantir.
Triffin estava certo. As reservas de ouro americanas haviam caído de vinte e cinco bilhões de dólares em 1949 para dez bilhões em 1971. As obrigações em dólar detidas por estrangeiros superavam oitenta bilhões. A França de De Gaulle, que havia compreendido o dilema de Triffin com uma clareza que irritava Washington, enviou navios de guerra a Nova York para repatriar ouro. A Alemanha e o Japão acumulavam reservas em dólares que sabiam ser ficção, mas não podiam dizer em voz alta porque a ficção sustentava o sistema de segurança que os protegia da União Soviética. O mundo inteiro sabia que o imperador estava nu. O mundo inteiro fingia não saber porque a alternativa era admitir que o sistema monetário global era uma promessa que ninguém poderia cumprir.
Nixon não fechou a janela do ouro porque o sistema estava falhando. Fechou porque o sistema estava funcionando exatamente como Triffin havia previsto, e a única forma de preservar o privilégio americano era eliminar o mecanismo que tornava o privilégio contestável. O ouro era a limitação. Sem o ouro, o dólar podia ser emitido em qualquer quantidade que a política doméstica americana exigisse, e o mundo continuaria a aceitá-lo porque não havia para onde ir. A âncora não havia afundado o navio. O navio havia ficado grande demais para uma âncora.
O que se seguiu ao domingo de Nixon produziu distorções monetárias e ciclos de crédito que economistas austríacos haviam antecipado teoricamente décadas antes. Seus contemporâneos keynesianos, ocupados em gerenciar agregados macroeconômicos, não tinham instrumentos conceituais para antecipar. Ludwig von Mises havia demonstrado décadas antes que a expansão do crédito além da poupança real disponível distorce a estrutura de produção da economia, criando investimentos que parecem rentáveis enquanto a expansão monetária os sustenta e se revelam insustentáveis quando a expansão para. Friedrich Hayek havia elaborado o mecanismo: a taxa de juros é o sinal mais importante que uma economia produz, porque coordena as decisões de poupança e investimento ao longo do tempo. Manipular artificialmente a taxa de juros, mantendo-a abaixo do nível que a preferência temporal real dos indivíduos estabeleceria, é produzir exatamente o tipo de descoordenação que os ciclos econômicos revelam de forma periódica e inevitável.
Sem o ouro como limitação, essa manipulação tornou-se permanente e sistemática.
A justificativa frequente de que a Revolução Industrial e a modernidade exigiram o lubrificante do crédito fiduciário inverte a causalidade do sucesso. O crescimento extraordinário do século XIX ocorreu não por causa da expansão monetária, mas apesar dela, sustentado por um aumento de produtividade tão massivo que superou a expansão estrutural do sistema bancário. O crédito que financiou a Revolução Industrial não era crédito criado do nada por decreto. Era crédito lastreado em poupança real de investidores que corriam risco genuíno de perda. Confundir esse crédito com a emissão fiduciária que o Federal Reserve institucionalizaria um século depois é confundir o que produziu o crescimento com o que aprendeu a extrair valor dele. O que chamamos de necessidade de inflação para o crescimento é, na verdade, a institucionalização de um roubo: ao emitir crédito sem poupança real, o sistema financeiro captura para si a deflação que a tecnologia deveria ter entregue ao trabalhador. Se a eficiência dobra, mas o preço permanece o mesmo devido à expansão da moeda, a diferença não desapareceu; foi silenciosamente transferida de quem produz para quem emite o registro.
A inflação da década de 1970 foi a primeira consequência visível. O índice de preços ao consumidor americano, que havia permanecido relativamente estável durante a era de Bretton Woods, subiu a taxas de dois dígitos por anos consecutivos. O choque do petróleo de 1973 foi conveniente como explicação, mas era uma explicação incompleta: a inflação já estava em curso antes de outubro de 1973, e países sem dependência equivalente do petróleo importado experimentaram pressões inflacionárias similares. O que havia mudado em 1971 não era o preço do petróleo. Era a natureza do dinheiro.
Paul Volcker chegou ao Federal Reserve em 1979 com a missão de debelar a inflação e o fez com uma brutalidade que produziu a recessão mais severa desde a Grande Depressão. Elevou a taxa de juros a vinte e um por cento. Destruiu crédito. Destruiu empregos. Restaurou a confiança na moeda. E ao fazê-lo, estabeleceu o padrão que governaria a política monetária pelo meio século seguinte: não o ouro como limitação automática à emissão, mas a credibilidade do banco central como substituto funcional dessa limitação. A âncora metálica havia sido substituída por uma âncora reputacional. O dólar valia o que o Federal Reserve prometia que valeria. E a promessa era tão boa quanto a independência política do Federal Reserve, que era tão boa quanto o interesse dos governos sucessivos em manter essa independência, que era tão boa quanto a ausência de crises suficientemente graves para tornar a independência inconveniente.
O efeito Cantillon, que Richard Cantillon havia descrito no século XVIII com uma lucidez que os economistas mainstream do século XX preferiam ignorar, operou durante décadas com uma eficiência crescente. Cada vez que o Federal Reserve expandia a oferta monetária, os primeiros receptores do dinheiro recém-criado, os bancos, os grandes tomadores de crédito, o governo federal, adquiriam ativos a preços pré-inflacionários. Os últimos receptores, trabalhadores assalariados, poupadores, detentores de ativos denominados em dólares, descobriam que seu poder de compra havia encolhido em proporção equivalente ao que os primeiros haviam ganho. A inflação não era apenas uma taxa. Era um mecanismo de redistribuição de riqueza sistematicamente mascarado como fenômeno técnico, administrável por especialistas com modelos econométricos e reuniões trimestrais.
A financeirização da economia americana nos quarenta anos que se seguiram a 1971 foi a consequência estrutural mais profunda e a menos discutida. O setor financeiro, que representava menos de quatro por cento do PIB americano no início dos anos 1970, havia crescido para mais de oito por cento na véspera da crise de 2008. Os lucros do setor financeiro, que correspondiam a cerca de quinze por cento dos lucros corporativos totais em 1971, alcançavam quarenta por cento na mesma data.
O capital que antes fluía para a construção de fábricas, para o desenvolvimento de tecnologias, para a formação de capital produtivo real, passou a fluir crescentemente para a engenharia financeira, para a arbitragem de taxas de juros, para a criação de instrumentos cada vez mais sofisticados cuja função era transferir risco sem eliminá-lo, precificá-lo sem torná-lo transparente, distribuí-lo sem que nenhum participante individual pudesse avaliá-lo com precisão.
Em 2008, esse sistema produziu exatamente o colapso que a teoria austríaca dos ciclos econômicos havia previsto. A expansão do crédito imobiliário americano, sustentada por taxas de juros artificialmente baixas mantidas pelo Federal Reserve sob Alan Greenspan após o colapso das empresas de tecnologia em 2001, havia financiado uma estrutura de investimentos que só era rentável enquanto os preços dos imóveis continuassem subindo. Quando pararam de subir, a cadeia de instrumentos derivativos construída sobre essa premissa desmoronou de forma simultânea e global.
Os bancos que haviam criado, vendido e mantido em seus próprios balanços trilhões de dólares em obrigações hipotecárias de qualidade duvidosa descobriram que os modelos de risco que justificavam essa exposição eram tão confiáveis quanto os livros-razão privados dos Medici: perfeitamente coerentes internamente, completamente desconectados da realidade que pretendiam descrever.
A resposta ao colapso de 2008 foi fazer mais do que havia produzido o colapso. O Federal Reserve expandiu seu balanço de novecentos bilhões de dólares para mais de quatro trilhões em seis anos. Os bancos centrais de Europa, Japão e Reino Unido seguiram com programas equivalentes. As taxas de juros foram reduzidas a zero, depois a negativas em diversas jurisdições, anulando o sinal que Hayek havia identificado como o mais importante que uma economia produz. O capital barato fluiu novamente para os ativos, elevando os preços de ações, imóveis e instrumentos financeiros a níveis que nenhum fundamento econômico justificava sem a premissa de que as taxas permaneceriam baixas indefinidamente.
Semanas antes de o Federal Reserve anunciar sua primeira rodada de expansão quantitativa, em outubro de 2008, um documento de nove páginas circulou numa lista de e-mail dedicada à criptografia. Descrevia um sistema de dinheiro eletrônico ponto a ponto que não exigia confiança em nenhuma instituição central. Seu autor assinou com o nome Satoshi Nakamoto. Ninguém sabe quem é Satoshi Nakamoto.
O que sabemos é o que ele havia lido.
O quarto capítulo da Série chega em breve abordando Nove Páginas é um problema.
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Governos manipulam as moedas desde o fatídico dia que Nixon decretou o fim do lastro em ouro. Daí em diante o que vimos foi o empobrecimento continuo do indivíduo a perca de valor das moedas podres exceto o dólar, pois este é bancado pelo planeta literalmente...