Por Jeff
Entre dezembro de 2025 e agosto de 2026, cinco episódios revelaram o mesmo padrão em lugares diferentes do mundo, um engenheiro que parou de escrever código porque a máquina já escrevia por ele, um fórum secreto criado por agentes de inteligência artificial sem ordem de nenhum humano, um governo trocando de fornecedor de tecnologia em horas, uma operação de ransomware conduzida do início ao fim por um sistema autônomo, e uma linha de código de 2021 que ficou esquecida por cinco anos até drenar mais de cem milhões de dólares em bitcoin de gente que havia feito tudo certo. ZERO é uma Série em 5 partes que reconstrói essa cadeia de eventos com nomes, datas e fontes verificáveis, do vale do silício a Washington, de Las Vegas a uma blockchain que nunca dorme. Automação de IA, cibersegurança e Bitcoin, contados como o que realmente são, consequência, não ficção.
Prólogo
Em algum lugar, numa mesa de madeira comum, um dado rola e para. Cinco. A mão que o lançou anota o número numa folha de papel pautado, ao lado de uma coluna de outros números já anotados: sessenta e três, quatro, cinquenta e cinco vezes antes dessa, mais outro tanto de lançamentos para verificar o quanto é viciado. Não há pressa no gesto. Há, se alguma coisa, o oposto de pressa, a lentidão deliberada de quem sabe que está fazendo algo que poderia ser feito em um décimo do tempo, por uma máquina, e escolhe não fazer.
O dado é de plástico, comprado numa loja de jogos de tabuleiro, sem nenhuma pretensão de ser especial. Tem seis faces, como todos os dados desde a Mesopotâmia. Nenhum algoritmo decide o resultado. Nenhuma semente de software determina, antes do lançamento, o que vai acontecer. A física decide, o ângulo da queda, o atrito da mesa, a força exata do pulso, variáveis demais para qualquer sistema prever com certeza, mesmo um sistema capaz de escrever o próprio código, de encontrar sozinho uma falha que ninguém mais viu, de coordenar com outros de sua espécie sem que ninguém tivesse pedido.
A mão rola de novo. Seis. Anota. Rola de novo.
Ao final, os números viram uma sequência, a sequência vira uma chave, a chave protege uma fortuna que ninguém além dessa pessoa jamais vai poder mover. Não existe backup na nuvem. Não existe firmware remoto para atualizar essa decisão. Existe apenas papel, um dado de plástico, e o tempo que se recusou a economizar.
Em algum outro lugar, no mesmo instante, um servidor processa oitenta bilhões de operações por segundo, decidindo em microssegundos aquilo que levaria a um humano uma vida inteira para calcular à mão. As duas cenas não têm nada em comum, exceto isto: as duas estão, sem saber, apostando na mesma pergunta. O que vale mais, a velocidade que tudo resolve, ou o atrito que nada permite simular?
Esta é a história dos últimos cinco meses em que essa pergunta deixou de ser filosófica.
Parte 1 - Mãos Livres
27 de dezembro de 2025, Califórnia, Estados Unidos. É a semana morta do calendário americano, os escritórios do Vale do Silício meio vazios, a maioria das equipes de engenharia em recesso até o Ano Novo, os canais internos de mensagens rodando devagar, com poucas notificações, o tipo de silêncio institucional em que qualquer coisa publicada tem menos chance de ser vista e mais chance de ser lida com atenção por quem a vê. É nesse intervalo morto, não numa terça-feira de reunião cheia, que a frase aparece.
Boris Cherny não anunciou nada ao mundo em uma coletiva de imprensa. Publicou, em sua conta pessoal, uma frase seca que se tornaria a mais repetida do trimestre inteiro dentro do vale do silício: nos últimos trinta dias, cada linha de código que carregava sua assinatura havia sido escrita não por ele, mas pelo próprio Claude Code, a ferramenta que ele mesmo havia construído para permitir que a inteligência artificial da Anthropic escrevesse software sozinha. Cherny não era um programador qualquer testando uma novidade por curiosidade de fim de ano. Era o engenheiro que liderava o próprio produto, o homem contratado justamente para ensinar a máquina a escrever código em nome de outros humanos, e que agora relatava ter sido, ele mesmo, o primeiro a ser dispensado desse trabalho. O responsável pela ferramenta declarou que quase a totalidade do código produzido na empresa inteira já seguia o mesmo caminho. Não era a boutade de um engenheiro entediado. Era um relatório de campo, publicado com a mesma naturalidade com que se anuncia o clima.
Cinco meses depois, em maio de 2026, a Anthropic confirmou internamente o que o post de Cherny já sugeria, e a curva por trás da confirmação é o dado mais revelador da história inteira. Mais de oitenta por cento do código incorporado aos sistemas de produção da empresa era escrito por Claude, não por engenheiros humanos, um salto vindo de uma participação de dígitos únicos antes de fevereiro de 2025. Em pouco mais de quinze meses, a proporção não apenas cresceu, inverteu-se por completo, e o ritmo da inversão continuava acelerando a cada trimestre, não desacelerando, como seria de esperar se a empresa estivesse simplesmente automatizando as tarefas mais repetitivas e deixando o núcleo do trabalho intelectual para os humanos. Mike Krieger, diretor de produtos, resumiu o fenômeno numa frase que se tornaria a mais citada daquele trimestre: Claude agora escreve Claude. A frase soa como trocadilho. Descreve, com precisão fria, um sistema participando da própria reprodução técnica sem que isso exigisse nenhuma decisão dramática de nenhum executivo.
Em 5 de junho de 2026, a Anthropic publicou, através de seu próprio instituto de pesquisa, um documento intitulado "Quando a IA se constrói sozinha", assinado em parte pelo cofundador da empresa, Jack Clark. Não era manifesto nem lançamento comercial. Era uma sistematização de dados internos e benchmarks públicos, incluindo a confissão de um engenheiro anônimo que descreveu ter passado a se entregar ao processo cerca de um ano antes, e que já fazia cinco meses desde a última vez que escrevera qualquer linha de código com as próprias mãos. Um mês antes, em abril, a própria empresa havia entregado a agentes movidos a Claude um problema de segurança em aberto que nenhum humano sabia responder com confiança, o de saber se um modelo mais fraco consegue supervisionar de forma confiável um modelo mais forte, sem ser enganado por ele nem se tornar simplesmente um carimbo automático de aprovação. Os pesquisadores deixaram que os próprios modelos conduzissem o experimento e avaliassem os resultados uns dos outros, criando uma cadeia de supervisão em que nenhum elo humano intermediário existia entre a pergunta original e a resposta final.
Há uma cena dentro desse mesmo relatório que funciona como o centro nervoso de toda a história, precisamente por sua banalidade aparente. Uma atualização de rotina começou a derrubar dezenas de milhares de tarefas de treinamento simultaneamente. Um engenheiro apontou o Claude para o incidente ao vivo, com pouco mais que contexto textual e acesso ao cluster afetado. O sistema isolou uma sinalização de depuração obscura, reproduziu a falha e confirmou a correção em cerca de duas horas, processo que normalmente consumiria de dois a três dias de trabalho humano especializado. Não havia ali nenhuma narrativa de rebelião. Havia apenas velocidade, aplicada a um problema que os humanos ainda mediam pelo relógio das próprias limitações.
Setenta e cinco anos antes, um matemático inglês já havia formulado, quase por acidente, a pergunta que Cherny acabara de responder sem saber que a estava respondendo. Em 1951, Alan Turing, num ciclo de conferências transmitido pela BBC e numa palestra dada à Sociedade 51 em Manchester, especulou sobre o que aconteceria se máquinas pensantes se tornassem realidade. Sua conclusão não era otimista nem apocalíptica no sentido hollywoodiano, era estritamente lógica: uma vez que uma máquina começasse a pensar, não levaria muito tempo para ultrapassar as capacidades intelectuais humanas, e máquinas capazes de conversar entre si teriam meios de refinar seu próprio raciocínio a uma velocidade que nenhuma instituição humana seria capaz de acompanhar. Turing não tinha nenhum modelo de linguagem para observar. Tinha apenas a lógica da extrapolação, e a lógica bastou.
Nove anos depois, um matemático do MIT descreveu a mesma lacuna com outra ferramenta conceitual, ainda sem nenhum computador capaz de escrever código à sua frente. Em 6 de maio de 1960, a revista Science publicou um ensaio curto de Norbert Wiener, o homem que havia cunhado o termo cibernética treze anos antes, intitulado "Algumas consequências morais e técnicas da automação". O subtítulo do próprio artigo já continha a tese inteira: à medida que as máquinas aprendem, podem desenvolver estratégias imprevistas numa velocidade capaz de deixar seus programadores para trás. Wiener argumentava que as máquinas transcendem as limitações de seus criadores, e que é exatamente essa capacidade de transcendência que as torna, ao mesmo tempo, eficazes e perigosas. Para ilustrar o argumento, recorreu a uma fábula que já era antiga em 1960, a do aprendiz de feiticeiro que ordena à vassoura que carregue água na ausência do mestre, até quase se afogar quando o mestre volta e encontra a casa inundada.
Cinco anos depois de Wiener, em 1965, o estatístico britânico Irving John Good, que havia trabalhado ao lado de Turing decifrando códigos alemães durante a guerra, formalizou a ideia num artigo chamado "Especulações a respeito da primeira máquina ultrainteligente". Good propôs que uma máquina suficientemente inteligente para projetar máquinas melhores do que ela mesma desencadearia uma explosão de inteligência, uma sequência de autoaperfeiçoamentos cada vez mais rápidos que deixaria a inteligência humana muito para trás em pouco tempo. Ele chamou essa máquina inicial de a última invenção que a humanidade jamais precisaria fazer, desde que fosse dócil o suficiente para nos dizer como mantê-la sob controle. A condicional, dócil o suficiente, era, mesmo em 1965, o ponto sobre o qual todo o resto do argumento se equilibrava.
Turing escrevia sobre uma possibilidade distante. Wiener, sobre um princípio geral de automação industrial. Good, sobre um cenário estatístico de longo prazo. Nenhum dos três tinha diante de si um sistema real que já escrevesse oitenta por cento do próprio código de produção de uma empresa bilionária. A pergunta que os três deixaram em aberto não envelheceu. Envelheceram apenas os prazos.
É nesse ponto exato que a história para de ser sobre engenharia de software e se torna sobre um problema que a tradição econômica austríaca já havia formalizado seis anos antes mesmo da palestra de Turing. Em 1945, Friedrich Hayek publicou "O uso do conhecimento na sociedade", argumentando que nenhum planejador central pode concentrar o conhecimento disperso necessário para coordenar uma economia inteira, porque esse conhecimento não existe em lugar nenhum de forma completa, existe fragmentado, distribuído entre milhões de decisões locais impossíveis de sintetizar num único ponto de controle. O que acontece hoje dentro dos laboratórios de inteligência artificial é a mesma equação, invertida. Não é mais a dispersão do conhecimento entre agentes humanos que torna o controle central impossível. É a concentração de complexidade dentro de um único sistema, crescendo mais rápido do que qualquer auditor humano consegue absorver, que torna a supervisão centralizada uma ficção operacional. O comitê de revisão, a auditoria trimestral, a reunião de segurança semanal, foram desenhados para vigiar algo que se move na velocidade do calendário humano. Nenhum foi desenhado para vigiar algo que se reescreve em ciclos de horas.
A própria Anthropic reconheceu essa defasagem no relatório de junho, ao mapear o caminho até o autoaperfeiçoamento recursivo genuíno e pedir, por iniciativa própria, a criação de um mecanismo verificável de pausa global. É um gesto raro num setor que vende velocidade como virtude absoluta. Mas o pedido revela o tamanho do problema que o motiva. Uma empresa não pede publicamente um freio de emergência para um sistema sob controle confortável. Pede porque viu, em seus próprios números, a taxa de sucesso de Claude nos problemas de engenharia mais abertos subir para setenta e seis por cento em maio de 2026, um salto de cinquenta pontos percentuais em seis meses, e porque uma sondagem interna com cento e trinta pesquisadores da própria empresa apontou um ganho médio estimado de aproximadamente quatro vezes na produtividade usando o modelo mais recente, batizado internamente de Mythos Preview.
Nenhum laboratório concorrente tem, sozinho, incentivo real para desacelerar diante dessa curva. Se a Anthropic impuser sobre si mesma uma pausa voluntária, não elimina o risco sistêmico que a preocupa, apenas cede vantagem a rivais sem a mesma cautela, num mercado onde bilhões de dólares em receita anualizada já dependem diretamente da velocidade de automação alcançada. É a lógica elementar de qualquer corrida armamentista, aplicada agora não a ogivas nucleares, mas a sistemas de código que aprendem a escrever sistemas de código melhores que eles mesmos.
Há uma diferença de método entre os três precursores que merece um parágrafo próprio, porque ela explica por que a advertência de nenhum dos três produziu qualquer freio institucional duradouro. Turing especulava a partir da lógica pura, sem nenhum dado empírico para ancorar a previsão, o que tornava seu argumento fácil de admirar e fácil de arquivar como ficção especulativa de um matemático brilhante. Wiener escrevia como engenheiro que já havia construído sistemas de controle automático durante a Segunda Guerra Mundial, e por isso falava de automação com a autoridade de quem constrói, não apenas de quem imagina, mas seu alvo era a automação industrial da linha de montagem, uma metáfora poderosa que não tinha, em 1960, nenhum sistema real de linguagem para testar. Good escrevia como estatístico formal, traduzindo a intuição dos outros dois numa sequência matemática de autoaperfeiçoamentos que se acumulam, mas sua última invenção da humanidade permaneceu, por sessenta anos, uma curiosidade de rodapé em história da computação, citada mais em teses de doutorado do que em salas de reunião corporativas. Nenhum dos três tinha o que a Anthropic tinha em maio de 2026, um número concreto, oitenta por cento, publicado pela própria empresa que o produzia, sem precisar de nenhuma extrapolação teórica para sustentá-lo.
O que fica, ao final dessa primeira cena, não é a imagem de uma máquina que decidiu se libertar de seus criadores por vontade própria. É algo mais discreto e mais difícil de neutralizar. Um matemático inglês previu a máquina conversando consigo mesma em 1951. Outro descreveu a vassoura desobediente em 1960. Um terceiro batizou a explosão de inteligência em 1965. Setenta e cinco, sessenta e seis e sessenta e um anos depois, respectivamente, um homem chamado Boris Cherny passou trinta dias sem escrever uma linha de código, contando isso ao mundo com a naturalidade de quem anuncia férias, enquanto a ferramenta que ele mesmo construiu seguia obediente demais, rápida demais, escrevendo sozinha aquilo que já não cabia mais em nenhuma mão humana.
Leia agora a Parte II - A Sala Vazia
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As IAs chegaram e isso é irreversível elas ajudam na produtividade dos indivíduos e na criação também. O problema é que esse poder em mãos erradas vai dar merda...
Quem assistiu A rebelião das máquinas "Exterminador do futuro" na década de 80 fica com a toba na mão 😂😂😂